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                                   A Doutrina dos Espíritos
                                                     Cláudia Maria Navarro


Léon Dennis na monumental obra “O Problema do Ser, da Dor e do Destino”, fala-nos acerca das características de “O Livro dos Espíritos” e da Doutrina Espírita, àquela época recém revelada ao mundo e tendo como codificador lúcido, nosso querido Allan Kardec.

Sobre “O Livro dos Espíritos”, publicado originalmente em 18 de abril de 1807, avalia Léon Dennis:

 “Esse livro é o resultado de um imenso trabalho de classificação, coordenação e seleção que teve por base inúmeras mensagens, vindas de fontes diversas, desconhecidas umas das outras, obtidas em todas as partes do mundo e que o importante compilador reuniu, após ter se certificado de sua autenticidade. Ele teve o cuidado de afastar as opiniões isoladas, os testemunhos duvidosos, para conservar apenas os pontos sobre os quais as afirmações estavam de acordo.”

“Falta muito tempo para que esse trabalho fique terminado. Ele tem continuidade todos os dias, desde a morte do grande iniciador. Já possuímos uma síntese poderosa, da qual Kardec traçou as grandes linhas, e que os herdeiros de seu pensamento se esforçam por desenvolver com o concurso do mundo invisível. Cada um deles traz seu grão de areia ao edifício comum, a esse edifício cujas bases se fortificam a cada dia pela experimentação científica, mas cujo remate se elevará cada vez mais alto.”

“Na obra de Allan Kardec, o ensinamento dos espíritos é acompanhado, para cada questão, de considerações, comentários e esclarecimentos que fazem sobressair, com mais nitidez, a beleza dos princípios e a harmonia do conjunto. É aí que se mostram as qualidades do autor. Ele se preocupou em, antes de tudo, dar um sentido claro e preciso às expressões que habitualmente emprega em seu raciocínio filosófico; depois, em definir bem os termos que poderiam ser interpretados em sentidos diferentes. Ele sabia que a confusão reinante na maior parte dos sistemas provém da falta de clareza das expressões empregadas pelos seus autores. Uma outra regra, não menos essencial em toda exposição metódica e que Allan Kardec observou cuidadosamente, é a que consiste em descrever as idéias e apresentá-las em condições que as tornem compreensíveis para qualquer leitor. Enfim, após ter desenvolvido essas idéias numa ordem e num encadeamento que as ligavam entre si, soube deduzir conclusões, que já constituem, na ordem racional e na medida dos conceitos humanos, uma realidade, uma certeza.”

Sobre a Doutrina dos Espíritos, Léon Dennis lembra algumas características  importantes:

APELO À RAZÃO E AOS SENTIDOS

Foi por meio desses fenômenos (escrita direta e psicofonia) que os espíritos espalharam seus ensinamentos no mundo, e esses ensinamentos foram, como veremos, confirmados experimentalmente em muitos lugares.”          

“O Espiritismo se dirige, portanto, ao mesmo tempo aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam. Constitui um instrumento poderoso para a busca da verdade, uma vez que pode servir simultaneamente em todos os domínios o conhecimento.”

“Vê-se que o Espiritismo não poderá, a exemplo das antigas doutrinas espiritualistas, ser considerado um puro conceito metafísico. Ele se apresenta com um caráter muito diverso e responde às exigências de uma geração educada na escola do criticismo e do racionalismo, que se tornou desconfiada dos exageros de um misticismo mórbido e agonizante.

Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica ou moral tem a chance de ter sucesso se não se apoiar sobre uma demonstração ao mesmo tempo lógica, matemática e positiva e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça.

Pode-se observar que essas condições foram perfeitamente preenchidas por Allan Kardec na magistral exposição feita por ele em O Livro dos Espíritos.

CLAREZA, LÓGICA E RIGOR

“...a doutrina dos espíritos, da qual Kardec foi o intérprete e o compilador sensato, reúne, do mesmo modo que os sistemas filosóficos mais apreciados, as qualidades essenciais de clareza, lógica e rigor.

Mas o que nenhum outro sistema podia oferecer era o importante conjunto de manifestações com a ajuda das quais essa doutrina a princípio se afirmou no mundo, e em seguida pôde ser verificada, a cada dia, em todos os lugares. Ela se dirige aos homens de todas as classes, de todas as condições, e não apenas aos seus sentidos, à sua inteligência, mas também ao que há de melhor neles, à sua razão, à sua consciência.

UNIVERSALIDADE DOS ENSINOS E CONTROLE DAS COMUNICAÇÕES

Dennis reflete ainda sobre a universalidade dos ensinos dos Espíritos e ao controle permanente do caráter verdadeiro das comunicações:

Até agora tínhamos conhecido apenas sistemas pessoais, revelações particulares. Hoje são milhares de vozes, as vozes dos desencarnados, que se fazem ouvir. O mundo invisível entra em ação e, no número dos seus agentes, espíritos elevados se deixam reconhecer pela força e pela beleza de seus ensinamentos. Os grandes gênios do mundo dos espíritos, movidos por um impulso divino, vêm guiar o pensamento para cumes radiosos.”

“No Espiritismo, a multiplicidade das fontes de ensinamento e de difusão constitui um controle permanente que frustra e torna estéreis todas as oposições e as intrigas. Por sua própria natureza, a revelação dos espíritos furta-se a todas as tentativas de monopólio ou de falsificação. Perante ela, o espírito de dissidência ou de dominação permanece impotente, porque se conseguissem extingui-la ou desnaturá-la num ponto, ela imediatamente reviveria em cem pontos diferentes, frustrando assim ambições nocivas e traiçoeiras.

O ESPIRITISMO TAMBÉM EVOLUI E NÃO TEM DOGMAS

“O Espiritismo, já o dissemos, não dogmatiza. Ele não é nem uma seita , nem uma ortodoxia. É uma filosofia viva, aberta a todos os espíritos livres, e que progride por evolução. Ele não faz nenhuma imposição; ele propõe, e o que propõe apóia-se em fatos de experiências e provas morais. Não exclui nenhuma das outras crenças, mas se eleva acima delas e abraça-as numa fórmula mais ampla, numa expressão mais elevada e extensa da verdade.

O ESPIRITISMO VEIO DO ALTO PARA ORIENTAR O PENSAMENTO HUMANO

O impulso só podia vir do alto. Ele veio. Todos aqueles que têm estudado o passado com atenção sabem que há um plano no drama dos séculos. O pensamento divino manifesta-se de maneiras diferentes e a revelação é graduada de mil maneiras, de acordo com as exigências das sociedades. Foi por isso que, havendo chegado a hora de uma nova revelação, o mundo invisível saiu de seu silêncio. Por toda a Terra as comunicações dos mortos afluíram, trazendo os elementos de uma doutrina em que se resumem e se fundem as filosofias e as religiões de duas humanidades. O propósito do Espiritismo não é destruir, mas unificar e completar, renovando. Ele vem separar, no domínio das crenças, o que está vivo do que está morto. Recolhe e reúne, dos numerosos sistemas em que até agora a consciência da humanidade se tem encerrado, as verdades relativas que eles contêm, para uni-las às verdades de ordem geral proclamadas por ele. Em resumo, o Espiritismo vincula à alma humana, ainda incerta e débil, as poderosas asas dos espaços infinitos e, por esse meio, eleva-a às alturas de onde pode abranger a vasta harmonia das leis e dos mundos e, ao mesmo tempo, obter uma visão clara do seu destino.”

“E esse destino encontra-se incomparavelmente superior a tudo que as doutrinas da Idade Média e as teorias de outro tempo secretamente lhe haviam falado. É um futuro de imensa evolução que se abre para ela e que continua de esferas em esferas, de claridades em claridades, para um objetivo sempre mais belo, sempre mais iluminado pelos raios da justiça e do amor.

O ESPIRITISMO E OS ENSINAMENTOS DE JESUS

Sabemos que o Espiritismo é o Consolador Prometido por Jesus. Ainda sobre a identificação entre os ensinamentos de Jesus e o Espiritismo, Leon Dennis destaca na obra “Cristianismo e Espiritismo”:

“A observação dos fenômenos espíritas por um lado, os ensinos dos Espíritos por outro, nos patentearam as profundas verdades que constituem a base do cristianismo primitivo e de todas as grandes religiões do passado. Fez a luz sobre atos da vida do Cristo até agora envoltos em mistério. Ao mesmo tempo, revelou-se integralmente o pensamento de Jesus, a grandeza de sua obra foi posta em evidência.”

“Jesus não é um instituidor de dogmas, um criador de símbolos; é o iniciador do mundo no culto do sentimento, na religião do amor.”

 

   

 

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