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LÉON DENIS E A EDUCAÇÃO ESPÍRITA
                                                                                                                                  
                                             Cláudia Maria Navarro


“A tarefa a cumprir é grande, e a educação do homem deve ser totalmente refeita. Essa educação, como vimos, nem a universidade nem a Igreja estão em condições de fornecer, uma vez que não possuem mais as sínteses necessárias para esclarecer a marcha das novas gerações. Apenas uma doutrina pode oferecer essa síntese: a do Espiritismo; ela já sobe no horizonte do mundo intelectual e parece iluminar o futuro.” (Léon Denis)

Muitas vezes ficamos a observar os problemas humanos, as dores, o desânimo, a desesperança, a descrença, o negativismo... Tudo isso associado a visões reducionistas de um mundo caótico, habitado por criaturas que oscilam como folhas mortas ao sabor do vento.

Quantas pessoas sem convicções, sem saber ao certo qual o sentido da vida... Sem saber quem são, do que gostam, para onde caminham..

Essas constatações nos fazem relembrar Léon Denis na Introdução da magistral obra “O Problema do Ser, do Destino e da Dor” cujos trechos que mais nos tocam transcrevemos abaixo.  O autor faz um retrato da sociedade de sua época que difere pouco da sociedade atual e aponta soluções baseadas no desenvolvimento de uma educação espírita. Não apenas a educação familiar e escolar da criança e do jovem, mas atentemos para o termo educação com significação mais ampla. Estamos encarnados para nos educarmos num processo contínuo de crescimento pessoal conhecido também como reforma íntima. Atentemos para as reflexões de Léon Denis:

“Uma observação dolorosa surpreende o pensador na velhice. Ela se torna ainda mais lastimável em conseqüência das impressões experimentadas em seu giro pelo mundo espiritual, e ele então reconhece que o ensinamento ministrado pelas instituições humanas em geral – religiões, escolas, universidades –, se nos ensinam muitas coisas supérfluas, em compensação não nos ensinam quase nada do que mais temos necessidade de conhecer para a nossa conduta: a direção da existência terrestre e a preparação para o além.

Aqueles a quem cabe a alta missão de esclarecer e guiar a alma humana parecem ignorar sua natureza e seus verdadeiros destinos.

Nos meios universitários, uma completa incerteza ainda reina sobre a solução do problema mais importante com que o homem se defronta no decorrer de sua passagem pela Terra. Essa incerteza se reflete em todo o ensino. Uma boa parte dos professores e pedagogos afasta sistematicamente de suas lições tudo o que se refere ao problema da vida, às questões de seu objetivo e finalidade.

Encontramos a mesma dificuldade nos líderes religiosos. Por suas afirmações desprovidas de provas, conseguem comunicar às almas sobre as quais têm responsabilidade apenas uma crença que não responde mais à lógica de uma crítica sã nem às exigências da razão.

A rigor, na universidade, assim como na Igreja, modernamente a alma encontra somente obscuridade e contradição em tudo que diz respeito ao problema de sua natureza e de seu futuro.   

É a esse estado de coisas que é preciso atribuir, em grande parte, os males de nosso tempo: a incoerência das idéias, a desordem da consciência, a anarquia moral e social.

A educação dispensada às gerações é complicada: não lhes esclarece o caminho da vida e não as estimula para as lutas da existência.

O ensino clássico habilita a cultivar, a fornar a inteligência, mas não ensina a agir, a amar, a se dedicar nem a alcançar uma concepção do destino que desenvolva as energias profundas do eu e oriente nossos impulsos, nossos esforços, para um objetivo elevado. No entanto, essa concepção é indispensável a todo ser, a toda sociedade, porque é o sustentáculo, a consolação suprema nas horas difíceis, a fonte das virtudes atuantes e das altas inspirações.

Carl du Prel relata o seguinte fato: “Um dos meus amigos, professor da universidade, sentiu a dor de perder sua filha, o que reavivou nele o problema da imortalidade. Ele se dirigiu aos seus colegas, professores de filosofia, esperando encontrar consolação em suas respostas. Teve uma amarga decepção: havia pedido pão e lhe ofereciam pedra; procurava uma afirmação e respondiam-lhe com um 'talvez'.”

Francisque Sarcey, modelo completo do professor da universidade, escreveu: “Estou na Terra. Ignoro absolutamente como vim e como fui lançado aqui. Ignoro ainda mais como sairei daqui e o que acontecerá quando sair”.

Não se pode confessar mais francamente: a filosofia da escola, após tantos séculos de estudo e trabalho, ainda é apenas uma doutrina sem luz, sem calor, sem vida. A alma de nossos filhos, sacudida entre sistemas diversos e contraditórios – o positivismo de Augusto Comte, o naturalismo de Hegel, o materialismo de Stuart Mill, o ecletismo de Cousin, etc. –, flutua incerta, sem ideal, sem um objetivo preciso.

Daí o desânimo precoce e o pessimismo desanimador, doenças das sociedades decadentes, ameaças terríveis para o futuro, às quais se acrescenta o ceticismo amargo e zombeteiro de tantos jovens que acreditam apenas no dinheiro e honram apenas o sucesso.

O ilustre professor Raoul Pictet assinala esse estado de espírito na introdução de sua última obra sobre as ciências psíquicas. Ele fala do efeito desastroso produzido pelas teorias materialistas sobre a mentalidade de seus alunos e conclui assim:

“Esses pobres jovens admitem que tudo o que se passa no mundo é efeito necessário e fatal de condições primárias, em que a vontade não intervém. Consideram que sua própria existência é, forçosamente, joguete da fatalidade inevitável, à qual estão ligados, de pés e mãos atados. Esses jovens param de lutar logo que encontram as primeiras dificuldades. Não acreditam mais em si mesmos. Tornam-se túmulos vivos, onde guardam, confusamente, suas esperanças, seus esforços, seus desejos, fossa comum de tudo o que lhes fez bater o coração até o dia do envenenamento. Tenho visto esses cadáveres diante de suas carteiras e no laboratório, e têm-me causado pena.”

Tudo isso não é somente aplicável a uma parte de nossa juventude, mas também a muitos homens de nosso tempo e de nossa geração, nos quais podemos constatar um sintoma de cansaço moral e de abatimento.

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A perturbação e a incerteza que verificamos no ensino repercutem e se encontram, como dissemos, em toda ordem social.

Por toda parte, há um estado de crise inquietante. Sob a superfície brilhante de uma civilização refinada, esconde-se um mal-estar profundo. A irritação cresce nas classes sociais. O conflito de interesses, a luta pela vida tornam-se, dia a dia, mais ásperos. O sentimento do dever tem-se enfraquecido na consciência popular a tal ponto que muitos homens nem mesmo sabem onde está o dever. A lei do número, ou seja, da força cega, domina mais do que nunca. Retóricos* mentirosos dedicam-se a desencadear as paixões, os maus instintos da multidão, a espalhar teorias nocivas, às vezes criminosas. Depois, quando a maré sobe e o vento sopra em tempestade, eles se escondem e afastam de si toda responsabilidade.

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A humanidade, cansada de dogmas e de especulações sem provas, mergulhou no materialismo ou na indiferença. Não há salvação para o pensamento, senão por uma doutrina baseada na experiência e no testemunho dos fatos.

De onde virá essa doutrina? Que poder nos livrará do abismo em que nos arrastamos? Que ideal novo virá dar ao homem a confiança no futuro e o fervor pelo bem? Nas horas trágicas da História, quando todos pareciam desesperados, o socorro nunca faltou. A alma humana não pode afundar inteiramente e morrer. No momento em que as crenças do passado se esgotam, uma concepção nova da vida e do destino, baseada na ciência dos fatos, reaparece. A grande tradição revive sob formas engrandecidas, mais jovens e mais belas. Ela mostra a todos um futuro cheio de esperança e de promessas. Saudemos o novo reino da idéia vitoriosa da matéria e trabalhemos para preparar seus caminhos!

A tarefa a cumprir é grande, e a educação do homem deve ser totalmente refeita. Essa educação, como vimos, nem a universidade nem a Igreja estão em condições de fornecer, uma vez que não possuem mais as sínteses necessárias para esclarecer a marcha das novas gerações. Apenas uma doutrina pode oferecer essa síntese: a do Espiritismo; ela já sobe no horizonte do mundo intelectual e parece iluminar o futuro.

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Mais alguns anos de trabalho paciente, de experimentação conscienciosa, de pesquisas contínuas e a nova educação terá encontrado sua fórmula científica, sua base essencial. Esse acontecimento será o maior fato da História desde o aparecimento do Cristianismo.

A educação, sabemos, é o fator mais poderoso do progresso; ela contém a origem do futuro. Mas, para ser completa, deve se inspirar no estudo da vida sob suas duas formas alternantes, visível e invisível, em sua plenitude, em sua evolução crescente em direção aos cimos da natureza e do pensamento.

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 Vamos rumo ao futuro, rumo à vida sempre renascente, pelo caminho imenso que nos abre o Espiritismo!

Tradições, ciências, filosofias, religiões, iluminai-vos com uma chama nova; sacudi vossos velhos sudários e as cinzas que os cobrem. Escutai as vozes reveladoras do túmulo, elas nos trazem uma renovação do pensamento com os segredos do além, que o homem tem necessidade de conhecer para melhor viver, melhor agir e melhor morrer!”


 

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