Espiritismo Religioso: um fenômeno brasileiro?
Cláudia Maria Navarro
...o Espiritismo então é uma religião? - Perfeitamente! sem dúvida; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso (Allan Kardec)
O Espiritismo é filosofia, ciência ou religião?
Para muitos pode parecer lógico seu tríplice aspecto.
Mas seria o aspecto religioso evidente para todos?
O aspecto religioso do Espiritismo seria uma realidade cultural brasileira, diferente de Espiritismo originado em terras francesas?
Nos primeiros tempos que se seguiram à publicação de O Livro dos Espíritos, Kardec usou freqüentemente a palavra moralidade para se referir a aspectos da nova doutrina que remeteriam a um sentimento religioso, ou que levariam o homem a uma transformação moral na direção do Bem.
Mais tarde, exatamente no ano de 1865 e Espiritismo aporta “oficialmente” em terras brasileiras e aqui começa a ganhar progressivamente contornos religiosos, dado a identificação dos espíritas brasileiros com o lema “Fora da Caridade não há salvação”.
Mas então as características do povo brasileiro teriam sido responsáveis por esse “abrasileiramento” do Espiritismo, que segundo interpretações materialistas poderiam ser uma deturpação da filosofia francesa original?
Seria o Espiritismo fruto do “misticismo da tradição cultural brasileira”?
Seria o “Espiritismo Religioso” um fenômeno cultural exclusivamente brasileiro, uma espécie de ressignificação ” de uma Filosofia francesa, concebida exclusivamente pala mente de um pedagogo francês?
A Doutrina Espírita, como sabemos, não foi fruto da elaboração mental exclusiva de um pedagogo francês chamado Hyppolite Léon Denizard Rivail, mas um trabalho conjugado dos espíritos desencarnados sob a coordenação de Jesus para trazer à Humanidade o Consolador Prometido.
Considerando que a o Espiritismo veio à Terra pelo trabalho amoroso de Jesus, que para o Brasil transplantou a árvore de seu Evangelho, remontemos aos esclarecimentos de Humberto de Campos no livro “Brasil, coração do Mundo, Pátria do Evangelho” e busquemos esclarecimentos mais específico nas palavras de Emmanuel, na introdução da referida obra:
“Nessa abençoada tarefa de espiritualização, o Brasil caminha na vanguarda. O material a empregar nesse serviço não vem das fontes de produção originariamente terrena e sim do plano invisível, onde se elaboram todos os ascendentes construtores da Pátria do Evangelho.”
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“Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos delicados florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas. Ao cepticismo da época soará estranhamente uma afirmativa desta natureza. O Evangelho? Não seria mera ficção de pensadores do Cristianismo o repositório de suas lições? Não foi apenas um cântico de esperança do povo hebreu, que a Igreja Católica adaptou para garantir a coroa na cabeça dos príncipes terrestres? Não será uma palavra vazia, sem significação objetiva na atualidade do globo, quando todos os valores espirituais parecem descer ao sepulcro caiado da transição e da decadência? Mas, a realidade é que, não obstante todas as surpresas das ideologias modernas, a lição do Cristo aí está no planeta, aguardando a compreensão geral do seu sentido profundo.”
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“Se outros povos atestaram o progresso, pelas expressões materializadas e transitórias, o Brasil terá a sua expressão imortal na vida do espírito, representando a fonte de um pensamento novo, sem as ideologias de separatividade, e inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz.”
Recordando o codificador busquemos saber o que pensava Kardec sobre o aspecto religioso do Espiritismo.
Quando remotamos ao último discurso de Kardec datado de 1º. de Novembro de 1968, por ocasião da Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, proferido na Sociedade de Paris, intitulado “O Espiritismo é uma Religião?”, publicado em Dezembro de 1868 encontramos o seguinte:
- "... Se assim é, dirão, o Espiritismo então é uma religião? - Perfeitamente! sem dúvida; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso, porque ele é a doutrina que funda os laços de fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as leis da própria Natureza. Porque então declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Por isso que só temos uma palavra para exprimir duas idéias diferentes e que na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto: revela exclusivamente uma idéia de forma, e o Espiritismo não é isso. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o publico só veria nele uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; o publico não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos, contra os quais sua opinião tem-se elevado tantas vezes. Não possuindo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se com um titulo sobre o valor do qual inevitavelmente se estabeleceria a incompreensão; eis porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral..."
Concluímos, portanto, com Kardec, que não existe Espiritismo Francês ou Espiritismo Brasileiro, mas apenas Espiritismo que bem estudado e compreendido nos faz ver que trata-se de uma Doutrina com evidentes culminâncias religiosas pelas orientações que oferece, por levar o homem a reflexões que o aproximem de Deus, e pelos princípios fundamentais que a norteiam. O Espiritismo é, pois religião no abrangente significado dessa palavra, como a entedia Allan Kardec.
Diz-nos Kardec: “os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito; colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito. Não são estes os fundamentos da religião?”
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